Tudo em todos

Deus deseja ser tudo em todos, para que todas as coisas estejam em uma relação mais profunda que não apenas a de subsistir nEle. Porque embora "todas as coisas foram feitas por Ele", segundo nos diz João 1.3, o que significa que o começo e mesmo a perduração na existência dos entes contigentes só é possíveis por atuação direta e sustentadora do próprio Deus, ainda aí não se encontra Sua vontade soberana. A mera intervenção contínua subjacente à realidade das coisas contigentes é insuficiente para Ele. O Apóstolo diz que "nEle vivemos, nos movemos e existimos" (At 17.28), citando um poeta grego. Esta relação não parece implicar algo mais profundo do que a conservação que uma pessoa tem por um computador – não porque ele o ama, mas por considerá-lo um meio apenas de obtenção do que deseja. Que o efeito depende da causa é algo trivial e não parece ser a totalidade do desejo Divino. Esta conclusão torna-se mais evidente quando consideramos a encarnação de Deus na Pessoa de Jesus. Isto pressupõem que o estado de coisas anterior não era o suficiente para Deus, desejando "algo mais". E este "algo mais" tem que ver particularmente com os humanos, pois foi em sua direção que veio a Divindade. Dada a encarnação, porém, parece haver um outro pressuposto fundamental que se relaciona com àquele: algo impedia a realização do Seu plano. E porque a encarnação é em direção aos humanos, o elemento impeditivo provinha dos mesmos. Mas a pergunta é: o que pode impedir um Deus Todo-Poderoso? Ele não poderia simplesmente ignorar este elemento ou mesmo o destruir? Sim e sim, mas em ambos os casos ocorreria algo que não Lhe interessaria: como aquele elemento é humano, se Deus o ignorasse, então, Ele ignoraria os próprios humanos; mas se Ele o destruísse, então Ele destruiria todos os humanos. Isto, porém, contraria a Sua vontade original, a saber, a de ter um relacionamento mais profundo com os seres humanos. Desta forma, salvo em caso de exterminar a raça humana por completo, Deus não pode simplesmente ignorar ou destruir o elemento que Lhe impede de atualizar o Seu intento. Resta, então, a opção de encontrar alguma outra alternativa e, porque ela foi atualizada, a encarnação é a única possível. Tanto é assim que o Apóstolo chama Cristo de "a plenitude daquele que cumpre tudo em todos." (Ef. 1.23) Cristo é o Pleróma da realização de Deus e a prova do Seu deleite na criação. A palavra grega para plenitude (pleróma) tem uma conotação de "encher", "enchimento", "totalidade". O Apóstolo constantemente a usa num sentido escatológico, onde Deus vem atuar ou algum plano Seu se realiza. Neste sentido, há vários plerómas, tanto do passado quanto ainda inéditos – como a volta de Jesus. Mas todos os plerómas, ou seja, todos os momentos em que o tempo de Deus chegou à borda, "enchendo" o recipiente da realidade, se alinham e têm sua validade apenas em retrospectiva (se no futuro) ou espera (se no passado) ao evento que é Cristo, o Pleróma do tempo. A importância magistral deste que é o centro da fé Cristã se revela nas palavras do Apóstolo: "mas, vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho" (Gl 4.4). Há, como muitos ensinam, duas palavras para tempo em grego: o kronos, que é o tempo de realização humana, e o kairos, que é o tempo onde Deus age. Por definição, a Divindade é soberana sobre o kairos. Na verdade, esta distinção se revela falha em um sentido fundamental, pois implica que Deus está preso à algum tempo – ainda que divino –, e isto desde toda eternidade. O uso do grego kairos não é para denotar esta outra dimensão da realidade, mas para denotar os vários momentos da história humana em que a Divindade agiu por livre e espontânea vontade. Deus, então, atravessa o kronos pelo kairos e encrava, no kronos, o Seu kairos, a Sua vontade, para mostrar que é Soberano sobre o kairos e sobre o kronos. E um destes kairos implantados no kronos é justamente a encarnação, que é a prova conclusiva de Sua atuação em nossa realidade. Mas, por ter como conteúdo um fato tão importante e indescritível – a encarnação dAquele que criou o Universo –, este kairos revela-se o começo do fim do kronos ou, posto de outra maneira, o fim daquela distinção entre kairos e kronos, onde o primeiro abarcará o último e se tornarão uma só realidade. Ainda que houvesse outros kairos "menores" antes do Kairos (encarnação), em termos de importância, o Kairos foi o começo do começo de uma nova era e o fim incompleto duma era passada. O Apóstolo, por isto, diz: "vindo a plenitude dos tempos, Deus enviou seu Filho". A palavra grega para "tempo" não é kairos, mas kronos, porque o kairos é o agir de Deus com ou sem o tempo, mas, neste caso, Ele preferiu agir (kairos) no tempo, no kronos. Então, quando o pleróma, ou seja, quando o encher do kronos ocorreu, quando o tempo dos homens já dava sinais de que estava parar dar à luz, quando cada átomo do Universo convergia para aquele momento, então Deus enfim atua segundo o kairos – que é um pleonasmo. Então, "Deus" envia "seu Filho, nascido de mulher, nascido sob a lei", para que Ele fosse tudo em todos por meio de Cristo, o Pleróma do kairos, a representação completa da vontade de Jeová.

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