Argumento contra Descartes?

Descartes formulou seu argumento em prol da dualidade de substância da seguinte forma:

P1. Posso duvidar que meu corpo existe;

P2. Não posso duvidar que minha mente existe;

P3. Se duas coisas não possuem propriedades exatamente idênticas, elas não podem ser idênticas;

∴ Portanto, a mente e o corpo não são idênticos.

O ponto central do argumento é P3, pois tanto P1 quanto P2 parecem serem verdadeiros – se não, pelo menos são mais verdadeiros que suas negações. P3 é o princípio da identidade, uma lei metafísica incontestável, que diz "a=a". 

Eu sou igual a mim mesmo (a=a), e se houvesse alguma propriedade ou característica que não participasse da minha essência, portanto não seria "eu", mas alguma outra coisa. No entanto, há um candidato a anulador do argumento de Descartes, que é como se segue:

P1'. Estou em dúvida se o café está quente;

P2'. Não tenho dúvidas que o café é escuro;

P3'. Se duas coisas não possuem propriedades exatamente idênticas, elas não podem ser idênticas;

∴ Portanto, o café que não tenho certeza se está quente não é idêntico ao café que é escuro.

Quem formulou este contra-argumento foi os professores do portal filosofianaescola.com, em (https://filosofianaescola.com/metafisica/dualismo-mente-corpo-descartes/). Este contra-argumento, porém, não funciona; especificamente, P2' não funciona, pois vai contra o próprio método de dúvida cartesiano. 

O argumento de Descartes em P1 tem por base sua famosa dúvida metódica, ou seja, é logicamente possível duvidar de praticamente tudo da realidade, inclusive a própria realidade. Posso duvidar que o mundo externo é objetivo, que minha mãe é mera ilusão da minha mente, que o passado ocorreu de fato etc. Mas há uma coisa da qual eu não posso duvidar, isto é, da minha própria existência. Segundo Descartes:

"Não podemos duvidar de que existimos quando duvidamos; e este é o primeiro conhecimento que obtemos filosofando com ordem."

Seu método se baseia nas seguintes considerações:

"Assim, rejeitando todas aquelas coisas de que podemos duvidar de algum modo, e até mesmo imaginando que são falsas, facilmente supomos que não existe nenhum Deus, nenhum céu, nenhuns corpos; e que nós mesmos não temos mãos nem pés, nem de resto corpo algum; mas não assim que nada somos, nós que tais coisas pensamos: pois repugna que se admita que aquele que pensa, no próprio momento em que pensa, não exista. E, por conseguinte, este conhecimento, eu penso, logo existo, é o primeiro e mais certo de todos, que ocorre a quem quer que filosofa com ordem." (Descartes, Princípios da Filosofia, I Parte, p. 55.)

É neste sentido que posso duvidar que meu corpo existe em P1, pois é logicamente possível tal dúvida. No entanto, o argumento dos professores da filosofia na escola não funciona em P2', isto por que ele diz que não posso duvidar que meu café é escuro, o que, na verdade, é falso, pois eu posso também duvidar disto. Eu só não posso duvidar da minha existência, pois, para tal, eu deveria existir, o que prova que existo. Mas, em relação às demais coisas, eu posso duvidar – até da cor de meu café!

Assim, o argumento de Descartes permanece válido.


 


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