PRS na religião

O Princípio da Razão Suficiente (doravante, PRS) versa sobre o motivo por detrás da ocorrência ou mesmo do ente em si, ambos contigentes – segundo a formulação que defendo de um PRS restrito à entidades contigentes. O motivo por detrás de minha preferência não é necessário para a sequência do texto, mas ele gira em torno da nossa incapacidade de, por exemplo, encontrar uma razão suficiente por detrás da realidade objetiva dos entes matemáticos e da lógica matemática. Seria suficiente dizer que tal razão estaria na própria natureza destas coisas – o que, de fato, faço –, mas então a formulação do princípio não abarcaria normalmente aquelas entidades, ditas, necessárias. 

Segundo o modelo do PRS que defendo:

1. Para toda verdade contigente p há uma razão suficiente para p

Omiti esta outra possível formulação:

1'. Para toda verdade contigente p há uma razão suficiente para a ocorrência de p

pois implicaria falsamente que p se restringe à eventos – pela enunciação de "ocorrência". Mas é toda e qualquer verdade contigente, e não apenas eventos. 

A crença em Deus, obviamente, é um dado contigente da realidade: tanto poderia crer (o que é o caso) quanto poderia não crer. Vamos considerar, com o fim de o argumento funcionar, que a existência de Deus não possa ser demonstrada filosoficamente – o que penso ser possível. Se for este o caso, então a crença em Deus é contigente. Por (1) é exigido uma razão suficiente para a crença em Deus (chamemos-a p). Se pressupormos a impossibilidade (não-lógica, por certo) da demonstração filosófica da existência de Deus, o que nos poderia servir de razão para justificarmos p? Caso não encontrarmos uma razão, então p torna-se arbitrário tanto quanto a crença em outra qualquer entidade que não pode ser demonstrada – e isto não o falo de uma maneira empírica.

Mas há uma solução! Ora, particularmente a fé cristã tem como núcleo a existência de uma entidade necessária chamada Deus, a qual se encarnou na Pessoa de Jesus de Nazaré. Uma vez que a existência deste ente é necessária, então a crença nEle também deve ter algum aspecto necessário no sentido de não ser preciso provar para se crer. Se você acha isto um salto lógico, pense um pouco sobre a existência de entes matemáticos: os números não podem ser provados ou demonstrados como tendo um existência objetiva independente de nossas mentes e que podem ser usados como aplicação à realidade das coisas enquanto instrumentos.

Os números, devidamente compreendidos, também são entes necessários – insentos de poder causal. Assim, embora não possamos prová-los racionalmente senão acabaríamos por enunciar algum argumento circular baseado na realidade mesma do que se deseja demonstrar, cremos ainda que os números são eficientes enquanto instrumentos de análise do real. A razão por detrás destas crenças seria a própria natureza dos números, qual seja a de serem entes necessários. Logo, como petição de princípio é um erro lógico, não há, então, qualquer obstáculo à crença em Deus, pois ela é, tal qual àquela, uma crença assentada sobre uma realidade necessária.

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